GAIA - Porto

Grupo de Acção e Intervenção Ambiental

quinta-feira, abril 28, 2005

4º dia

28 de Abril de 2005

Ao quarto dia sem TV, tenho de confessar, estou a sentir-me um bocadinho desesperado. Estou um pouco vazio do que costumo receber, mesmo que o que recebo habitualmente seja lixo. Isto porque tento fazer coisas diferentes, estar com pessoas, sentir por mim e não por aquilo que me querem impingir, mas não consigo! Bloqueio! Parece que me habituei a que me ditassem a minha própria conduta...
E, entretanto, ponho-me a pensar: sou um viciado, a minha droga é como as outras. Ninguém a entende, mas é raro quem abdica dela. Estando constantemente preso, se me vejo livre fico de tal forma perdido que acabo por não me aperceber da totalidade de coisas que posso fazer, que tenho intrinsecamente a capacidade de fazer, que posso percepcionar, interpretar, criticar... Mesmo sem ser elegante como aquele apresentador do telejornal, aprumado como o outro actor ou culto como aquele comentador - sou eu, e isso custa ter de assumir sempre...
O meu dia não foi muito diferente do "habitual recente". Fui para o trabalho, os meus colegas continuam meios incrédulos face à minha resistência - mas questionaram algumas coisas! Perguntaram se eu acho que, por aguentar esta semana, irei realmente mudar o meu conceito de TV. Respondi que sim, mas pensei que até o meu próprio conceito de prioridade vai mudar... E também perguntaram se eu acho mesmo que vou mudar alguma coisa significativa no mundo. Não me apeteceu responder-lhes.
Estou irritado. Se calhar, se visse uma série americana a coisa estancava. Eu esquecia-me que estou irritado e nunca entenderia que me entrego à máquina, qual robot, à espera que alguém me viva.

Estar assim faz-me sentir vivo. Tenho energia, muita energia acumulada! Vou sair. Não sei bem até que ponto a caixinha metálica do computador não me remete para a realidade da outra caixinha metálica que é a TV. Por isso, vou passear, convidar alguém para me ouvir e para eu ouvir, para nos olharmos e sentirmos que não somos tele-programáveis. Que somos nós.


João Marques

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