GAIA - Porto

Grupo de Acção e Intervenção Ambiental

terça-feira, abril 19, 2005

activistas portuguesas em Bruxelas

Duas activistas do GAIA actualmente fora do país, fizeram parte de uma enorme e pacífica acção de protesto em Bruxelas.


Este fim de semana, como alguns de vocês sabem, decorreu o Bombspotting XL (se quiserem saber mais pormenores http://www.bomspotting.be/). Começou por ser organizada por 2 associações, uma delas a For Mother Earth. Este ano chamaram-lhe Bomspotting XL, por ser a maior até hoje, em 3 locais em simultâneo: Kleine Brogel (onde estão armazenadas armas nucleares americanas), a sede da NATO em Bruxelas e SHAPE, a base militar da NATO, em Mons.

A acção é totalmente não violenta, e consiste em entrar nestas bases para chamar a atenção do público em geral da posse de armas ilegais na Bélgica e a posição da NATO.
A organização da acção recomenda os activistas a participarem em acções de formação que decorreram no dia inteiro anterior ás acções. Com a formação pretede-se igualmente que os activistas decidam as suas acções e até onde estão dispostos a ir. Ninguem é obrigado a nada e muitas são as formas de colaborar.

O dia antes
Foi obviamente passado em "formação". A formação foi dividida em 4 partes: acção (o que está previsto, histórias passadas), a Lei Belga, simulações de possíveis situações e finalmente como saltar as vedações!!
Seguiram-se os trâmites legais, todas as possíveis consequências de participar nesta acção, as razões pelas quais seríamos presos, como seríamos e o que a polícia nos podia fazer. Nada ali foi deixado para trás e todas as hipóteses foram ponderadas. Nesta fase explicaram-nos também como reagir á polícia, no caso de sermos presos. Nunca fugir, correr e sempre SEM VIOLÊNCIA de qualquer tipo.

O Dia
Sábado começou com uma reunião de todos os activistas. Foram explicados os últimos detalhes. Ainda nesta fase foram-nos dados os mapas da bases, no nosso caso: o da Nato, um mapa de Bruxelas, uma declaração (em holandês) e respectiva tradução (em inglês) para entregar a polícia. Esta declaraçäo serve como queixa (da presença de armas nucleares) e foi previamente escrita por um grupo de advogados que apoia legalmente a acção.
Ainda os números de contacto em caso de algum problema, a localização do ponto de encontro (após a acção), os números dos advogados, médicos entre outros. Aqui assinámos igualmente um documento em como declarávamos que estavámos cientes que iríamos praticar um acto de desobediência civil, que nos comprometíamos a manter uma postura de não violência, não levaríamos armas ou qualquer tipo de objectos ilegais.

Mal chegamos a Bruxelas o nosso autocarro foi detido pela policia, que nos escoltou até á chamada zona de Free Speech, onde aí nos poderíamos manifestar. Saímos do autocarro e fomos tentar aproximar-nos da vedação da base. Rodeados pela polícia a nossa acção não durou mais de 45 minutos. Apareceu um policia que olhou para nós e nos disse para não nos mexermos. Quando olhei para a cara dos outros tinhamos todos um sorriso na cara como quem diz: Game Over.

Um segundo policia apareceu e vinha bastante alterado. Escorregou por entre a vegetação, o que fez com que ficasse ainda mais enervado. Gritou e refilou....no final da acção pediu desculpas a uma activista pela maneira como nos tinha abordado.
Os policias não foram minimamente agressivos connosco. Foram simpáticos e sorridentes. Na sua maioria eram miúdos, que devem ainda andar na academia. Seguiram-se algumas formalidades como as algemas e a identificação. No caminho para a prisão parecia que íamos num autocarro para a escola, todos a falar e contar piadas. Os policias riam-se connosco e sorriam.

As pessoas á minha volta estavam calmas, trocavam-se sandes, cantavam-se músicas em todas as línguas e de tempos a tempos alguém perguntava se estavamos todos bem. Pessoas de todas as idades participaram na acção. Miudos de 12 anos, avós de 60, malta melhor ou pior vestida, deputados do parlamento europeu...enfim....juntos por uma causa e todos presos.
Das diferentes celas contavam-se piadas, cantava-se, ria-se faziam-se jogos. Os policias riam-se igualmente... assim passaram as 3 horas que estive presa.

No final explicaram-me, tal como já o sabia, que fomos presos por pensarem que teriamos a intenção de entrar em território privado, (Nato) e que a nossa prisão foi administrativa, ou seja, apenas poderia ser presa por um máximo de 12h e não ficaria com qualquer tipo de registo criminal ou judicial.

Na prática a nossa acção teve vários efeitos: os 3 locais foram fechados durante um dia inteiro. Imensa policia e recursos foram para ali desviados e acima de tudo a atenção mediática de vários paises. Milhares de queixas foram entregues nesse dia e cerca de 400 pessoas de várias nacionalidades presas. Sob a enorme ameaça das armas nucleares...esta acção é um pequeno passo.
No final, depois de sermos libertados encontramo-nos todos num centro municipal em Bruxelas, foram apresentados os resultados globais da acção e todos os activistas estavam bem. Ninguém foi magoado ou brutalizado pela policia em toda a acção.
Á noite quando me deitei respirei de alívio mas com o sentido de que tinha feito algo útil e global. Não o fiz de cabeça fria, fi-lo ciente e acompanhada por muita gente que tal como eu acredita num mundo de paz sem espaço para armas.
E assim fica um relato de uma acção que me ficará para sempre na memória.

Em http://www.indymedia.be/news/2005/04/95675.php podem ver uma entrevista comigo e com a Diana.

Life is full of Possibilities!!

Nocas

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