GAIA - Porto

Grupo de Acção e Intervenção Ambiental

segunda-feira, abril 25, 2005

Em direcção ao campo ...

25 de Abril

Em direcção ao campo ...

O primeiro dia de abstinência audio-visual ... hmmm, pensando bem talvez a expressão não seja a mais apropriada ... o meu dia foi repleto de imagens e sons, ainda que, pelo menos até agora, totalmente desprovido de televisão. Primeiro dia de abstinência televisiva, creio que assim estará mais correcto.
Hoje fui para o campo. Sempre cresci e vivi na cidade, ainda que isso seja um tanto irrelevante na perspectiva televisiva; a televisão compete com Deus no dom da ubiquidade ;O)
25 de Abril, dia da liberdade, e a liberdade não é muito sincera entre blocos de cimento e persistentes ruídos urbanos, ou depende, depende daquilo que somos capazes de acreditar. Para todos os efeitos fui para o campo, tomei o comboio e fugi da cidade.
Ainda antes de partir apeteceu-me ligar a TV, tal como sempre faço ... ao não o fazer não estava a lutar com um mero desejo mas na realidade com aquilo que percebi em mim como um instinto, um acto mecânico e automático, um gesto contido em mim quase tão inato como respirar. Tudo muito bem não fosse esse pequeno detalhe de necessitar de ligar um aparelho para conceber a minha própria realidade ... não fosse esse detalhe de me ter sentido privado de algo tão intrínseco ao meu quotidiano: “on” e as imagens a chegar, as vozes do apresentador ... Normalmente vejo sempre as notícias, para saber como vai o mundo talvez ... mas porquê vai então o mundo sempre na mesma? A informação não nos deveria tornar indivíduos mais conscientes, capazes de viver outro mundo? Então porquê o inverso? Porquê nos faz os mesmos indivíduos, as mesmas atitudes, as mesmas notícias, os mesmos reclames ... mais do mesmo à distância de um mero “ON”.
Mas não sei viver sem esse “mais do mesmo”, pensei hoje de manhã ao ver-me privado dele, não sei simplesmente porque nunca vivi ... Não vi as notícias, e senti-me como se não houvessem notícias ... como se a realidade do mundo, fora do contexto restrito do meu dia-a-dia, se tivesse dissipado no vácuo. Terá sido realmente assim? Óbvio que não. Creio que o moral da história, ou pelo menos uma delas, foi chegar à conclusão que a realidade do mundo, a minha realidade, é a realidade de um botão “ON”, com tudo o que isso implica. E nem faço muito bem ideia do que isso implica, tenho de admitir.
Lembro-me por exemplo do caso da Ponte de Entre os Rios, e na obscena exploração televisiva que foi feita da tragédia daquelas pessoas, dos picos de audiência ... hoje Entre os Rios vale um mero cabeçalho de uma remota página de jornal ... será que os actores que serviram ao grande show noticioso deixaram de ser reais? Será que a sua tragédia e a pertinência deste caso deixou de ter “interesse jornalístico”? Ou será que essa tragédia já deixou de ter valor comercial de “prime sharing”? E infelizmente por esse mundo fora não faltam tragédias que é preciso lembrar, condenar, pensar, reflectir ... hoje não vi o telejornal, pelo menos até agora, mas se o visse provavelmente sei que ele começaria com algumas novidades políticas, ou desportivas, eventualmente não por essa ordem. As tragédias só dão audiência até certo ponto, depois tornam-se aborrecidas, as audiências exigem novos conteúdos para saciar a sua fome de realidade. Realidade? Que parte dela? Que perspectiva dela?
Parti de comboio em direcção ao campo. Pelo caminho olhando pela janela vi traços ainda vivos, já letárgicos, de um passado rural cada vez mais remoto nas grandes cidades. Porquê passado? Porque o futuro tem de parecer com uma auto-estrada, de pouco nos importa a nossa velocidade ou o som, a côr, o odor, do que está fora do carro, ou de como ficam transformadas as paisagens à velocidade de 130 km, como se deixa de sentir os pormenores além do conta kms.
NA estação ouvia as pessoas falar. Era de futebol que as pessoas falavam. Se lesse “O Principesinho” talvez ele dissesse: “ As pessoas crescidas falam do futebol não como um desporto que se aprecia mas como toda a sua vida dele dependesse para fazer sentido”. Se perguntasse às pessoas que falam de futebol, e sobretudo de futebol, quem elas eram, de onde vêm, para onde vão, provavelmente diriam sou benfiquista, ou sportingquista, ou portista, venho da minha terra e vou ver a bola. E não é por acaso que a Bola é o jornal mais vendido em Portugal. Não é também por acaso que as audiências se agitam em reboliço com o futebol, pelo menos em Portugal.
Senti-me sozinho, não tinha visto o futebol, e senti-me como se não tivesse nada para dizer àqueles dois velhotes. Ou tudo o que teria para lhes dizer, ou eles a mim, se resumisse em menos de 5 minutos. Um jogo de futebol leva 90m.
Um pouco depois reparei como os passarinhos cantavam. Fazia muito tempo que não reparava nos passarinhos assim a cantar, pelo menos sem ser num anuncio publicitário. Cantavam, como se fossem indiferentes à realidade dos telejornais, mas no fundo, se calhar, estão ainda mais atentos que qualquer um de nós, e por isso cantam como sabem, e nada sabem de futebol ou de casamentos reais.
Moral da história: Os passarinhos não vêm televisão e parecem muito felizes ao cantar, pelo menos quando não estão presos em jaulas ;O)

João Marques
à 21h sem ver televisão

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