GAIA - Porto

Grupo de Acção e Intervenção Ambiental

quarta-feira, agosto 17, 2005

Porto

parte i

já lançaste bem um olhar sobre esta cidade abetanada, onde os poucos jardins transpiram verde apagado, derrotado, murcho, sem qualquer esperança... as casas em cima de casas, as tintas descolam-se das paredes abandonadas, os novos apartamentos gabam-se de ter derrotado mais um espaço sem cimento, muros crescem vertiginosamente sem qualquer murmúrio a pedir desculpa. no outro dia ao lançar um olhar sobre o rio, senti as suas aguas à beira do desespero suicida... esforço-me por encontrar a beleza e maravilha que tanto ouço falar... só vejo olhos sem brilho, gente à fome, pessoas que se cruzam sem se olharem, como se de invisíveis nos tratássemos... crianças já sem qualquer sorriso na face a não ser quando se colocam em bicos de pés a olhar uma montra e a deliciarem-se com o novo modelo de telemóvel...
as portas automáticas dos bancos abrem-se e fecham-se e não vejo nem sinto ninguém a atravessá-las...
porto para mim transformas-te rapidamente em pó e muros sem cor, em gentes vazias e tristes, em pobres e velhos abandonados, em homens e mulheres sem amor com fome por dinheiro e centros comerciais!

parte ii (repetição)
os olhos avistam gaia a partir do palácio cristal, 31 de julho

o cimento está descalço e os edifícios deixados ao abandono. janelas partidas, paredes sem cor beijando o
o rio transformado em espuma e cinzento da actividade desumana.
vivemos presos a estes muros mais altos que nós na frustrante tentativa de nos taparem o céu, o verde, o nu, o belo, o selvagem, o perfeito...
caminhamos vivendo um sonho com fim, um sonho que se consome como uma fatia de tarte, na ilusão da droga da letargia, da apatia, da indiferença, do medo submisso, da alegre escravatura do ser...
não pensar é o lema desta vida cada vez mais rápida, mas cada vez mais oca, recheada com o mais precioso ouro mas de interior de absoluto vazio...
a vontade transforma-se em lojas da moda, grandes televisores e corpos que dançam ao barulho sem vida nas grandes e ensurdecedoras discotecas!
caímos no nada, somos nada, vivemos nas nossas casas uns em cima dos outros, cheios de fortes paredes de cores artificiais, com as nossas caixas de roupa e bens que de nada nos servem senão a nossa imediata e curta felicidade... estamos a morrer...

pedro g - http://despairhop3.blogspot.com/

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